domingo, 18 de janeiro de 2009

Le Mans: Inaltera GTP (nº88) 1977





Jean Rondeau é um filho de Le Mans, nascido nessa mesma vila a 13 de Maio de 1946, em plena ressaca da II Guerra Mundial. Sem ter completado ainda 3 anos, o seu pai levou-o a assistir à 17ª Edição das 24 Horas de Le Mans, a primeira desde a interrupção causada pela invasão da França pela Alemanha Hitleriana em 1939/40. Para o ainda muito jovem Rondeau, o impacto foi imediato e desde cedo que o sonho de competir nessa grandiosa prova que se desenrolava ao pé de sua casa se tornou um objectivo de vida. Desta forma, e sem ser propriamente uma surpresa, Rondeau começa a competir aos 8 anos de idade, participando aos 10 no “Critérium du Jeune Pilote”, uma prova organizada pela ACO, que servia de montra para os jovens pilotos. Poucos anos mais tarde, mais concretamente em 1959, o seu pai, um baluarte de apoio na sua carreira de piloto, acabaria por falecer, mas Rondeau manteve a convicção desse sonho de criança e continuou por sua conta.Em 1968, os primeiros resultados dessa “teimosia” acabariam por surgir. Depois de uma passagem apagada pelos monolugares de promoção, Rondeau vira-se para as provas de Turismo, numa primeira fase, e depois para as provas de Sport. Após uns brilharetes com o Renault R8 Gordini, começa a competir no Troféu Alpine, que utilizava os míticos Renault Alpine, no qual viria a terminar no 12º lugar no ano de estreia. No ano seguinte, ainda no Troféu Alpine, Rondeau consegue alcançar a final do “Volant Shell”, terminando em 5º lugar.Nos dois primeiros anos da década de 70, Rondeau decide participar nas provas de Montanha, ainda ao volante de um Renault Alpine, tendo vencido 12 provas e amealhando ainda mais 5 vitórias nas corridas de sport em circuito. Depois de dois anos com o Alpine, Jean Rondeau consegue finalmente realizar o sonho de competir nas 24 Horas de Le Mans, em 1972, ao volante do Chevron B21 Ford da categoria Sport 2 Litros, da equipa inglesa de Brian Robinson. Logo nos treinos oficiais, Rondeau obtém o melhor tempo na sua categoria. Competindo por sua conta e risco, e com um orçamento extremamente limitado, Rondeau acaba por desistir à nona hora de prova por dificuldades em recuperar o Chevron por falta de peças sobresselentes, para as quais não possuía orçamento. Longe de se dar por vencido, Rondeau decide participar numa das duas prova que restavam do WSC, os 1000km de Zeltweg, onde termina em 12º lugar com o mesmo Chevron B21 Ford de Brian Robinson.

Em 1973, Rondeau volta a tentar a sua sorte nas 24 Horas de Le Mans, desta vez com o Porsche 908/02 da categoria Sport 3 Litros do Francês Christian Poirot, mas não consegue sequer qualificar-se. Ruma então ao Reino Unido, onde ganha o Troféu “British Leyland”, voltando de novo no ano seguinte a La Sarthe, e ainda com o Porsche de Poirot. Realizam o 25º melhor tempo durante dos treinos, terminando a corrida no 7º lugar da categoria Sport 3 Litros, e 19º da geral.Depois de 3 tentativas frustradas nas categorias de sport-protótipos, Rondeau participa nas 24 Horas de Le Mans de 1975 na categoria de Turismo, com o Mazda RX-3 de Claude Bouchet, terminando no 8º lugar da geral, mas obtendo a sua primeira vitória em Le Mans ao vencer a categoria. Curiosamente, Christian Poirot e o seu Porsche 908/02 terminaram esse ano no pódio (3º da geral) ganhando ainda a categoria Sport 3 Litros.

Com quatro participações, e com um resultado global de uma vitória na categoria de Turismo e a melhor classificação à geral, com um 8º lugar, nesse ano de 75, Rondeau, que sempre foi bastante ambicioso, decide dar um passo em frente e tornar-se piloto-construtor. Estávamos no ano de 1976, dois anos depois de a Matra ter anunciado a sua retirada do WSC e de Le Mans, em 1974, após de 3 vitórias consecutivas e 10 anos de participação sem interrupção. Sem uma equipa Francesa em prova, as 24 Horas de Le Mans de 1975 acabariam por ser dominadas por equipas inglesas e alemãs, apesar da presença da Ligier (que acumulava esta participação com o seu lançamento na Formula 1) e do seu 2º lugar à geral. A verdade é que a Ligier nunca foi um verdadeiro obstáculo aos Mirage e aos Lola nesse ano, e só os problemas mecânicos que afectaram os T292 e T294 da marca fundada por Eric Broadley (curiosamente inscritos por uma equipa francesa) é que lhe permitiram o seu melhor resultado de sempre em Le Mans.


Mas do desejo de voltar a ter uma presença francesa forte e credível em Le Mans, nascem dois projectos: um do ex-designer da Peugeot, Gerard Welter, e o outro da iniciativa de Jean Rondeau. Ambos os projectos, que tinham como objectivo a formação de uma “Equipe de France”, iriam à partida utilizar os motores PRV (Peugeot, Renault e Volvo) V6 2.7 Litros e os protótipos iriam ser construídos segundo os regulamentos do Grupo 6 – GTP. Rondeau, que bem se lembrava da potência debitada pelo Ford Cosworth DFV (também utilizado em larga escala na Formula 1) que os Mirage ingleses colocavam em pista, optou construir um GTP competitivo mas pouco “patriótico”, apostando no motor Norte-Americano em detrimento do propulsor Francês. Esta opção valeu-lhe o “fechar de portas” do apoio das grandes empresas francesas, que acabaria por ser canalizado para o projecto de Gerard Welter. Mas, longe de se dar por vencido, Rondeau joga uma cartada de mestre e assina um contracto com a multinacional do papel “Inaltera”, que incluía, além do patrocínio, também o nome do protótipo em construção. Com esta jogada, Rondeau estava na “boca do mundo” e tinha deixado meia França de tal forma escandalizada que nas 24 Horas de Le Mans de 1976 a TF1, a principal cadeia de televisão francesa, daria ordens especificas aos seus comentadores para não pronunciarem o nome do patrocinador de Rondeau nem sequer o nome oficial do protótipo. Apenas delegando na firma de design automóvel francesa “Bureau de Design Ovale” a concepção aerodinâmica do GTP Inaltera, Rondeau e um grupo de amigos de longa data constroem o protótipo literalmente no quintal da sua casa, a pouca distância do circuito de La Sarthe, ficando dois Inaltera totalmente prontos no tempo record de 5 meses.


Para terminar em beleza o projecto, Rondeau consegue ainda o brilharete de contratar para a sua equipa dois dos melhores pilotos franceses da altura, um deles o, à época, tri-campeão de Le Mans Henri Pescarolo (vencedor em 1972, 73 e 74) e Jean-Pierre Beltoise.No entanto, uma outra equipa iria retirar toda a atenção mediática sobre estes dois projectos. A Renault, acabava de juntar os preparadores Gordini e Alpine, criando a Renault Sport para atacar tanto as 24 Horas de Le Mans como o World Sportscar Championship. Esta sim, a verdadeira “Equipe de France”.Sem financiamento suficiente para realizar a temporada do Campeonato do Mundo de Carros Sport, Rondeau concentra todas as suas forças nas 24 Horas de Le Mans de 1976, onde se apresenta com dois Inaltera LM, o primeiro conduzido pela dupla Pescarolo/Beltoise e o segundo conduzido pelo próprio Rondeau, pelo francês Jean-Pierre Jaussaud e a piloto belga Christine Beckers. Com apenas 5 carros inscritos na categoria GTP – os dois Inaltera, o WM, um Lola e um Lancia Stratos – os Inaltera rapidamente se colocam como os melhores GTP durante os testes e treinos, mas claramente sem andamento para acompanhar os protótipos de Grupo 6. Os melhores tempos acabam por ser realizados pelo Alpine Renault A442, mas durante a corrida a juventude do protótipo não perdoou e o único Alpine Renault inscrito não chegaria a terminar a prova, negando a vitória à sua tripla francesa de luxo: Jean-Pierre Jabouille, Patrick Tambay e José Dolhem. Já Rondeau acabaria por ver os seus dois GTP construídos de forma altamente artesanais cruzarem ambos a linha da meta, com o nº2, conduzido por ele próprio, a terminar no 21º lugar, 3ª GTP, e o nº1, de Pescarolo e Beltoise, a alcançar um excelente 8º lugar e 1º GTP. Mais uma vitória para Rondeau, embora numa das classes inferiores de Le Mans, e uma vitória para o Inaltera por si construído na prova de estreia. Com andamentos superiores aos GTP, a vitória sorriu à dupla Jacky Ickx e Gijs van Lennep no novo Porsche 936, numa prova dominada pelos protótipos de grupo 6.Em 1977 Rondeau volta à carga, e, mais ambicioso que nunca, inscreve 3 protótipos Inaltera LM na classe GTP. O nº1 com Jean-Pierre Beltoise agora acompanhado pelo americano Al Holbert, o nº2 com a dupla 100% feminina constituída pela italiana Lella Lombardi e a belga Christine Beckers e, por último, o nº88 com o próprio Jean Rondeau a dividir o volante com o versátil francês Jean Ragnotti. Pescarolo é “desviado” para a equipa principal da Porsche, fazendo dupla com Ickx, e Jaussaud vai competir com a Alpine Renault, que também inscreve 3 carros. Tanto uma como a outra, continuam a optar pelo grupo 6, de longe a Classe mais competitiva e com mais condições para aspirar à vitória final nas 24 Horas. Na qualificação, o nº1 obtém o 13º melhor tempo, o nº2 fica com o 19º e o nº88, de Rondeau, apenas com o 20º melhor tempo. Durante a prova, o Inaltera de Beltoise e Holbert ainda chegou a rodar no 3º lugar da Geral, à frente de um dos Porsche oficiais, mas no entanto um problema durante um dos reabastecimentos causou uma “mini” inundação do cockpit do protótipo e posterior incêndio, com Beltoise ainda no seu interior. Após hora e meia de reparações ainda voltaram à pista, concluindo a prova no 13º lugar da geral, dois lugares atrás do carro “feminino” de Lella e Christine, que terminaram em 11º lugar. O terceiro Inaltera, conduzido por Rondeau, ainda rodou em 3º lugar da geral na parte final da prova, mas Ragnotti, responsável pelo último turno do nº88, não conseguiu segurar o Porsche 935 privado da equipa francesa JMS Racing/ASA Cachia, com o francês Claude Ballot-Léna e o americano Peter Gregg ao volante. Apesar de o pódio lhe ter fugido nos minutos finais, o 4º lugar de Ragnotti e Rondeau constituía a melhor classificação final de de sempre para ambos e para jovem equipa de Rondeau, voltando a vencer, apesar de tudo, a categoria GTP. A vitória final coube de novo à Porsche e de novo a Jacky Ickx, desta vez acompanhado pelo alemão Jurgen Barth e o americano Hurley Haywood.Apesar dos resultados até serem bastante positivos, tendo em conta o facto de a equipa ser amadora e de participar com um protótipo artesanal quando comparado com os Renaul Alpine, os Porsche ou até os Mirage, a Inaltera, empresa que patrocinava a aventura de Jean Rondeau, decide em 1978 não continuar a apoiar o pequeno construtor. Privado de quase 5 vezes menos orçamento do que nos dois anos anteriores, Rondeau fiel ao seu carácter de não desistir perante as adversidades, apresenta-se em 1978 com uma evolução do Inaltera, que passa a chamar-se Rondeau M378, de novo inscrito na classe GTP mas pela primeira vez apenas com um protótipo. De forma a conseguir um financiamento extra, Rondeau vende um dos anteriores Inaltera LM à André Chevalley Racing, do piloto suíço André Chevalley. A qualificação 24 Horas desse ano corre-lhes bastante mal, e Rondeau, que nesse ano faz equipa com os compatriotas Bernard Darniche e Jacky Haran, acaba por não fazer melhor que o 40º melhor tempo, enquanto o Inaltera LM vendido à equipa suíça consegue realizar o 19º tempo, entre 55 concorrentes. Na corrida, no entanto, conseguem voltar a mostrar a competitividade de sempre, vencendo novamente a classe GTP e obtendo o 8º lugar da geral, no ano em que a Renault venceu pela primeira e única vez em Le Mans, com Jean Pierre Jaussaud (ex-companheiro de equipa de Rondeau) e Didier Pironi (meio-irmão de outro ex-piloto de Rondeau, José Dolhem) ao volante do Renault Alpine A442B, e decidiu pôr fim à sua aventura em La Sarthe.Em 1979, fruto da insistência e da capacidade de convencer tudo e todos a partilhar o seu sonho, Rondeau consegue de novo inscrever 3 dos seus Rondeau M379 (evolução do M378), obtendo para cada um deles um conjunto de patrocinadores diferente, aproveitando ainda a desistência da Renault para voltar a convencer Henri Pescarolo e Jean-Pierre Beltoise a voltarem a correr pela sua equipa. Desta forma, com o apoio da VSD e da Canon, o Rondeau nº5 fica a cargo da dupla Jean Ragnotti e Bernard Darniche; o nº4, pintado com as cores da ITT e da Oceanic, é partilhado por Henri Pescarolo e Jean-Pierre Beltoise; e por fim Jacky Haran a fazer companhia a Rondeau no nº55, com o apoio da Merlin Plage. Pela primeira vez, Rondeau decide inscrever dois dos seus protótipos na classe principal, o Grupo 6 (Sport 2 litros), o nº 4 e o nº 5, enquanto o seu nº 55 é inscrito na classe GTP. Na qualificação, Pescarolo/Beltoise fazem o 9º e Ragnotti/Darniche o 6º melhores tempos. No entanto, e pela 1ª vez, um protótipo construído por Rondeau não logrou terminar a prova, cabendo a “fava” ao conduzido pelo próprio. Curiosamente, a corrida acabou por ser dominada pelos Grupo 5 (GT), cabendo a vitória ao Porsche 935 da Kremer Racing conduzido pelo alemão Klaus Ludwig e pelos americanos Don e Bill Whittington. Os Rondeau que terminaram a prova, acabariam em 5º e 10º lugar Ragnotti/Darniche e Pescarolo/Beltoise, respectivamente). Finalmente um Rondeau (Ragnotti/Darniche) vence a classe Grupo 6 (Sport 2 litros), no entanto o domínio tinha passado para os GT’s “corpulentos” do Grupo 5.Hugo Ribeiro "Le Mans" . (Texto AutoSport).

A miniatura é da Altaya fabricada pela IXO Models na escala 1/43.

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